
Gilberto Braga, autor de grandes clássicos da teledraturgia brasileira; estreou em 1991 com "O Dono do Mundo", estrelada por Malu Mader e Antônio Fagundes, foi uma trama de grande expectativa após o fenômeno de "Vale Tudo".
Em primeiro, deve-se dizer os três pontos que define a novela: Proposta excelente e ousada, desenvolvimento lento e a falta de carisma por parte dos personagens e da trama em si.
O primeiro ponto a destacar é a proposta inicial da novela, que é sem dúvidas uma das mais ousadas do autor com um toque clássico — A inocência de uma mocinha e a maldade de um homem de poder financeiro e social. Márcia (Malu Mader), uma moça virgem, noiva de Cláudio, funcionário da clínica estética de Felipe (Antônio Fagundes), um dos maiores cirurgiões plásticos do país, que no dia do casamento de Márcia e Cláudio, faz uma aposta com o seu amigo, proposta esta de levar Márcia pra cama antes de Cláudio, ou seja, ser o homem a tirar a virgindade da mocinha. O cirurgião que tem uma personalidade mesquinha e nitidamente narcisista, se mostra ao casal como um grande amigo e oferece uma viagem ao Canadá para passarem a lua de mel. No Canadá, Cláudio decide resolver problemas do trabalho e deixa Márcia o esperando, abrindo o caminho para Felipe, que a seduz na ausência do rapaz, e no capítulo 3, a jovem bate na porta do quarto dele, e passam a noite juntos. Logo após a volta de Cláudio, a jovem confessa tudo e ele sai transtornado, provocando um acidente na estrada e consequentemente a sua morte. Márcia se sente culpada, mas mesmo assim decide se entregar para Felipe, o que a moça não sabe: é que tudo não passava de uma aposta do crápula, e quando logo descobre, o amor "inocente" se transforma em ódio mortal, nascendo uma sede de vingança obsessiva, entregando aquela icônica dela invadindo a mansão de Felipe e o cortando seu rosto com um bisturi.
Bom, nesse primeiro ponto, devemos falar duas coisas: a primeira é o ínicio ágil, e foi essa agilidade que prejudicou — Fazendo com que a trama se "esgotasse" rapidamente, e recorrendo a uma vingança da mocinha mal construída, e a segunda é justamente essa vingança, que não cria uma expectativa devido a Márcia não ser, digamos que 100% a vítima da história, já que foi ela que se entregou a Felipe, e se não descobrisse que foi usada, iria insistir no rômance com o rapaz, mesmo sabendo que provocou indiretamente a morte do seu noivo. A Márcia muitas vezes se mostra mais sonsa, do que propriamente inocente, causando uma antipatia do espectador em relação a ela.
E então, partimos pro segundo ponto: o conduzimento lento da novela. Como dito antes, a trama se esgotou precocimente, e a novela entrou numa fase lenta e sem animo, que foi a vingança da mocinha. Após meses nesse plot, a Márcia consegue o seu objetivo, e põe Felipe no fundo do poço. E daí o Gilberto decide por um novo plot: A Redenção de Felipe, como forma de renovar o enredo e contornar a audiência baixa que enfrentava. Isso, de alguma abandonou a proposta inicial, mas era a única escapatória de reerguer a novela. Os capítulos entre setembro a dezembro de 91, foram dedicados a essa redenção e ironicamente a tentativa do rapaz em reconqusitar o amor de Márcia, que foi atraindo aos poucos a atenção do público e até mesmo afeição ao Felipe. No capítulo exibido numa noite de Natal, é revelado que toda essa redenção não passava de uma grande farsa e que na verdade era um plano de Felipe pra se vingar de Márcia. Em resumo a isso, não negasse que foi uma forma inteligente de dar continuidade a trama, mesmo muitas vezes sendo de forma monótona e sem a agilidade vista nos primeiros capítulos.
E o terceiro e último ponto, talvez tenha sido o principal fator que contribuiu pro fracasso da novela: falta de carisma e apatia dos personagens. A própria mocinha não tinha elementos pra gerar uma minima torcida do telespectador, e boa parte dos personagens também não, mesmo boa parte tendo histórias interessantes. Salva-se pela Olga (Fernanda Montenegro), que sem dúvidas é uma das melhores personagens da novela, e o casal Thaís e Beija-Flor, vivido por Letícia Sabatella e Angelo Antônio, que explodiam a química. A atmosfera fria, escura e elitista, apesar de muitas vezes excessiva; foi definitivamente a alma da novela, uma novela requintada e culta, talvez a mais da carreira do Gilberto Braga.
Em geral, "O Dono do Mundo" é uma trama mediana, e marcada pela perda de agilidade do autor em relação as suas obras anteriores (Corpo a Corpo e Vale Tudo), e que mesmo com os problemas internos de desenvolvimento, conseguiu contonar de forma "digna". (6,8/10).